Fabiano Badawi
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Teste: O Motor de Rastreamento mantém o alvo na ocular?

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Teste: O Motor de Rastreamento mantém o alvo na ocular?

Foto: Estrela Alpha Crucis travada na ocular de 25mm

Introdução

Quem pratica astronomia sabe: a Terra não para de girar, e o céu é um alvo móvel. Para a minha Maratona Caldwell 2026, decidi colocar à prova o meu motor de Ascensão Reta (RA). O objetivo era simples: será que ele mantém o objeto no centro da ocular ou terei que fazer ajustes constantes no telescópio?

Um motor de rastreamento é útil principalmente nessas situações:

  • Observação por longos períodos
  • Observação com grandes aumentos
  • Observação em grupo (a primeira pessoa verá o objeto e as demais terão que fazer ajustes)
  • Astrofotografia de longa exposição ou grandes aumentos.

Foto: Motor de Rastreamento

Objetivo do teste

Verificar a precisão do motor em RA (Ascensão Reta). Após o motor entrar em funcionamento a expectativa é que o objeto observado fique pelo maior tempo possível no campo da ocular.

Setup do experimemto

  • Equipamento: Telescópio Newtoniano com ocular de 25mm + Motor em RA simples.
  • Celular: Motorola Edge 40
  • Suporte: Celular
  • Aplicativo: Clicador automático

Foto: Setup do experimento

Alinhamento com o Polo Sul Celeste

Para que o rastreamento funcione é obrigatório que a montagem equatorial esteja alinhada com o Polo Sul Celeste.

Estou fazendo o alinhamento durante o dia e eu já tenho a minha referência do Polo Sul Geografico no meu horizonte, que é um prédio. Então ao apontar minha base para este prédio estou apontando para o Polo Sul Geografico.

Foto: Observando o Sul geográfico através da base equatorial.

Foto: Meu ponto de referencia do Sul geográfico.

Pronto, a base está alinhada com Polo Sul Geografico. A confirmação se dá ao observar o prédio de referencia através do orificio da montagem.

Faço uma marcação no chão para eu não precisar alinhar novamente nas próximas observações, basta eu posicionar os pés do tripé na marcação e tudo já estará alinhado.

Foto: Marcação da referência de alinhamento ao Polo Sul Geográfico

Uma vez a base alinhada com o Pol Sul Geográfico no horizonte basta ajustar a montagem com a sua latitude e, pronto, o telescópio estará alinhado com o Polo Sul Celeste.

Foto: Alinhamento da base equatorial com a sua latitude

O nivelamento da montagem também é essencial. Após este passo o alinhamento do telescópio com o Polo Sul Celeste está concluído.

Metodologia: 60 Fotos em 60 Minutos

Vou capturar 1 foto por minuto para observar a deriva (drift) do objeto pela ocular. Eu escolho a estrela Alpha Crucis na constelação de Cruzeiro do Sul, por ser brilhante e estar numa posição favorável para o meu teste.

Estou usando o aplicativo Clicador Automático para Android configurado para acionar o botão de foto uma vez por minuto.

Foto: Celular capturando 1 foto por minuto

Foto: Motor fazendo o rastreamento no eixo de RA

Motor acoplado e ligado fazendo o rastreamento dos astros no céu.

Esta foi a minha primeira captura às 20:57.

Eu deixei o motor de rastreamento ligado e o aplicativo de clique automático registrando uma foto por minuto. Como estava tudo automatizado fui passear com o cachorro.

No meio do caminho fiquei apreensivo pois algo poderia dar errado, um vento forte, o celular cair no chão, um motor travar, a montagem cair etc. Mas confiei e fui para o meu passeio.

Foto: Passeio com o cachorro durante o teste

De volta do passeio, 1 hora depois fui conferir o resultado do experimento.

Sim! A estrela ainda estava no campo de visão da ocular!

Bem no cantinho da ocular, mas estava, depois de uma hora. Considerando que início do teste a estrela estava no meio da ocular considerei um ótimo resultado.

Para um observação visual significa que você pode observar o objeto por 1 hora sem colocar a mão no telescópio para fazer ajuster na posição.

Foto: Última captura às 21:58.

Mas... Porque o objeto se moveu?

A principal causa é o alinhamento polar, o alinhamento não é perfeito e sim aproximado, e isso se reflete no movimento do astro pela ocular.

3 causas que considero por ordem de importância:

  • Erro de Alinhamento Polar: Se o telescópio não aponta exatamente para o PSC, o objeto "sobe ou desce" no campo (deriva em Declinação).
  • Velocidade do Motor: O motor pode estar um pouco mais rápido ou mais lento que a velocidade sideral.
  • Erro Periódico do Motor: O passo das engrenagens não são perfeitas.

Analise do vídeo

Fiz um time lapse de uma hora de observação em um vídeo de 6 segundos, o que permite analisar a deriva (drift) do objeto.

O objeto inicia próximo ao centro e descreve uma trajetória vertical em direção ao canto superior esquerdo.

Componente Vertical (DEC): O objeto "sobe" no campo de visão. Em uma montagem equatorial perfeita, o movimento deveria ser apenas lateral (se o motor errasse) ou nulo. O fato de ele subir é a prova matemática do erro de alinhamento polar.

Apesar da deriva o movimento é bem linear. Isso é uma boa notícia! Significa que não tenho grandes problemas de erro periódico nas engrenagens. A erro de alinhamento é puramente geométrico (posicionamento da montagem).

Em um certo momento houve um salto na imagem, verifiquei a captura e não houve falha na captpura dos frames. Acredito que alguém possa ter esbarrado no telescópio na minha ausência.

Time-lapse: 1 hora em 6 segundos

motor-acompamento-ra

Conclusão

O resultado superou as minhas expectativas. Sem o motor de rastreamento, a estrela Alpha Crucis levaria em torno de 5 minutos para cruzar o campo de visão da minha ocular 25mm e desaparecer. Com o motor ligado, ela permaneceu visível por 60 minutos, o que melhora muito o conforto da observação e abre a possibilidade de usar aumentos maiores sem que os ajustes manuais frequentes causem trepidação no equipamento.

O teste também confirmou que a mecânica do motor é consistente, com erro periódico desprezível para observação visual mas o alinhamento da montagem ainda precisa de um ajuste fino. Caso eu precise de mais precisão vou fazer o método de drift para um alinhamento mais fino.

Para observação visual e planetária este setup está aprovado. Para astrofotografia eu ainda recomendo fotos de até 10 segundos de exposição para aumentos pequenos e até 5 segundos para grandes aumentos. E por fim, meu próximo passo será testar o Método de Drift para zerar essa subida em Declinação.

A jornada pelo céu profundo continua, agora com muito mais confiança no equipamento!

Fabiano Badawi
Céus limpos e boas capturas!


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